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A Casa de Resina

Ana Thea Dabefs

9 min de leitura

Imagem de abertura do conto A Casa de Resina

Eu nasci aqui mesmo em Conceição do Mato Dento, taiada em quartzo ferruginoso, arenito e pau já faz tanto tempo que nem sei mais contar.

Me cobriram de madeira e palha. Me coloriram de cal. No meio do quarto fizeram brotar uma cama com as mesma pedra com que subiram minhas parede, colocaram colchão de palha e cobertor de lã.

Lá na cozinha me renderam um grande fogão, cuja chaminé estava sempre soprano uma fumacinha escura, no tempo que ela trabaiava no seu ofício de artesã.

O caldeirão a descansar sobre a trempe desde que ela por aqui chegou: a moça mais formosa que já andou por essas bandas. Os cabelo caino até a cintura feito os cacho de jade vermêia que ela plantou lá no caramanchão do jardim.

Fiquei feliz pra daná quando ela deu de morar aqui mais eu, uns ano aqui atrás. Causa de que eu tava largada fazia tempo, num sabe? Só via mato crescendo na minha base, a poeira acentano nas pedra.

Ela era tão prendada.

Nó!

Puxou a bisavó de quem me herdou.

Cortou o mato, varreu a terra, tirou as teias de aranha, tratou do jardim, consertou a cerca...

Logo percebi que ela gostava das coisa ajeitadinha. Gostava das coisa vistosa. E nisso a gente deu certim.

Ó procê vê!

Passei a querer bem a pequena ruiva.

Mas ela tinha por ofício, e por mania, pegar tudo quanto trem que achava bonito e meter numa coisa meio mole, meio dura, que depois de fria ficava que nem vidro, a que chamava de resina: uma novidade que trouxe da capital. Depois ficava horas e horas raspano, polino, raspano de novo, até ficar lisim e brilhano.

Brilhano que nem os zoião verdes dela. Aqueles zôio tão bonito…

Num podia ver uma flor de cor diferente que... zap!

Metia na geleia transparente e botava pra esfriar.

As borboleta?

Vixi!

Pr’éssas ela num dava sossego.

Era uma dá um tiquim assim de sopa lá no jardim e... zap!

Tava na resina.

Tinha de tudo quanto era cor.

Era besouro roxo, lagarta rosa, rã verde, folha amarelano...

Até um beija-florzim, que fez a bestagem de vir aqui beijar as jade, ela catou. Tamém, quem manda ser tão colorido, né?

Zap!

Tá no vidro.

Fazia chaveirim, aparador de porta, tampa de caixinha de joia... espêio.

— Num é judiação, não. É cuidado. A beleza tem que ser guardada antes que envelheça e morra. Olha pra tu vê... Essa borboleta aqui, toda azulzinha, ia morrer logo, agora, guardadinha na resina, será sempre bela. — Ouvi ela dizer prum cliente que veio comprar um de seus enfeite.

Ela passava dia e noite tacano lenha debaixo da trempe do meu fogão de pedra pra mó de derreter a danada da resina. Metia o bicho, a flor, o trem que fosse bonito dento, punha pra secar.

Uns vendia, outros guardava, enfileirados nas muita prateleira que espaiô por todas essas parede.

Óia... vou te falar um negócio, bonito até pode ser. Mas, de noite, enquanto ela dormia aquele sono pesado que só as consciência tranquila tem direito, eu que ficava escutano o choro deles:

— Me tire daqui, faz favor! Eu num consigo respirar direito.

— Pelamor de Deus, me deixe sair dessa bola de vidro.

— Eu preciso voar de volta pra minha família. Devem de tá preocupados comigo.

Mas o que eu podia fazer? Dó eu tinha, mas num sabia como tirar eles da resina, uai.

Nem tenho mão pra isso.

Um dia ela trabaiô o dia inteirim fazeno enfeite.

Cada borboleta, cada besouro mais bonito que o ôto. Meteu tudo numa sacola grande. Depois, esticou os braços pra cima da cabeça, ao lado do fogão e disse:

— Eita, que tô morta de cansaço. Vou deixar a resina aqui no caldeirão e vou encostar ali um tiquim, que amanhã eu pego a estrada é cedo.

Estrada?! Cedo?

Tu vai viajar?

Eita!

E me largar aqui com esse tanto de trem chorano?

Tá ino pronde? Vorta quando?

E me deixar empoeirada e coberta de teia de aranha ôta veis?

Ah, mas num vai não, senhora.

Capaz!

Ela foi se deitar.

Esperei ela pegar no sono, o que num demorou, causa de que a bichinha tava só o caco.

Quando tava roncano baixim, dei uma sacudidinha no embasamento pra mó de estremecer o fogão. A brasinha, que tava acorda num acorda, despertou de veis e ateou fogo na lenha seca.

As chama subiram a queimar a bundinha do caldeirão.

Num demorou a resina tava borbulhano.

Blump, blump, blump…

E foi subino, subino subino… escorreu pelos lados do caldeirão de ferro, escorregou pelas pedras do fogão e chegou ao chão de barro batido por onde foi se arrastano devagarim... até o quarto.

Blump… blump... blump…

Tomou a cama, engoliu o colchão de palha, envolveu o corpo da moça um tico de cada veis.

Os pé, as perna, os bracim.

Blump... blump... blump...

Os cabelos vermeio dela se espaiaram bonito, que só cê veno.

E quando ela despertou, assustada, pensano que tava teno um pesadelo, foi na mesma horinha que a resina cobria os zoião verde dela.

A boquinha redondinha e carnuda, feito morango maduro, escancarada.

A resina tomou ela todinha.

E continuou ’rastano pelo chão e subino pelas parede, preencheno tudo quanto é canto meu.

Até na chaminé entrou.

Blump, blump, blump…

Mas eu ainda podia escutar ela gritano lá de dento da gosma.

— Uai...que isso?!

Que doidice é essa?

Eu sou gente, sô!

Posso ser envidrada não!

Me livra daqui, pelamor de Deus, que num consigo respirar direito.

Num consigo me mexer!

Me acuda! Me acuda, pelamor de Deus!

E ficou lá gritano por muito, muito tempo, causa de que só eu escuto o pranto dela e eu num sei como tirar ela de lá.

Mas tamém, tirar pra quê, num é?

Ela é a maior boniteza por aqui. E agora tá guardadinha pela eternidade, fechadinha aqui dento de mim.

Pra quem quiser ver.

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